A Tese

Quarta-feira, 9h. Sala de reunião. Sete pessoas. Um dashboard projetado na tela.

O CFO comenta a queda de margem. O VP de operações justifica. O CEO aprova. A reunião acaba.

Você sai com a impressão de que decidiu alguma coisa. Mas não decidiu.

Existe uma confusão silenciosa que acontece em muitas empresas: reunião virou sinônimo de decisão. Toda segunda, quarta ou sexta, alguém abre o BI, lê os números em voz alta, e o time concorda. Ninguém leva tarefa. Ninguém assume risco. O calendário fica cheio. O resultado fica igual.

A reunião de KPI foi perdendo o propósito ao longo do tempo. Hoje serve mais para alinhar narrativa do que para mudar trajetória. O dashboard virou o centro da apresentação, a apresentação virou o ritual, e o silêncio coletivo virou assentimento. Tudo muito bem organizado. Nada de fato resolvido.

Decidir é diferente de discutir. Uma decisão tem dono, tem prazo, tem critério de sucesso. Sem esses três elementos, o que acontece na sala de reunião é uma análise compartilhada que não gera compromisso de ninguém.

Dados sem decisão são só história bem contada. E você já sabe o que vem depois: mais slides, mais filtros, mais cores. A próxima quarta chega, o ciclo se repete, e a margem continua onde estava.

O Contexto

A pressão por reduzir reuniões cresceu nos últimos três anos. Shopify, Asana e Atlassian publicaram dados sobre o custo das reuniões recorrentes, e o argumento foi sempre o mesmo: reunião consome tempo de execução. O que ficou de fora do diagnóstico, porém, é o problema mais grave. A reunião de dados não custa só tempo. Custa decisão.

O CEO médio de uma empresa de médio porte passa entre 23 e 28 horas por semana em reuniões. Boa parte delas tem dashboards na pauta e, em tese, são fóruns de decisão. Na prática, viraram cerimônias de validação. A diferença entre os dois mundos é sutil, mas tem consequência operacional direta. Numa cerimônia, você reafirma o que já está em movimento. Numa decisão, você muda o curso de algo.

O mercado de BI vendeu a promessa de que o dashboard substituiria a discussão. Aconteceu o contrário. O dashboard preencheu o tempo da discussão sem produzir saída. Você troca de aba, escolhe um filtro, encontra um padrão, vira para o time e ouve concordância. Saída zero.

Quando uma empresa cresce, o número de reuniões cresce em quadrado. O número de decisões reais cresce em raiz quadrada. A distância entre os dois aumenta a cada trimestre, e ninguém percebe, porque o calendário continua sinalizando produtividade. O calendário virou o KPI mais traiçoeiro da liderança.

O Framework

Existe um teste simples para separar reunião de decisão. Se o encontro termina sem três marcas, ele não foi reunião de decisão. Foi cerimônia. Esse é o Protocolo DDR: Dono, Data, Revisão.

Toda decisão real tem Dono. Uma pessoa nomeada com primeiro e último nome. Não é o time. Não é a área. Não é "vamos ver". Decisão sem dono é torcida. O Protocolo DDR força esse passo no fim de cada reunião. Antes de levantar da cadeira, alguém pergunta: quem é o dono dessa? E o nome é dito em voz alta, na frente de todos. É a diferença entre responsabilizar alguém e culpar a circunstância.

Toda decisão real tem Data. Não a data em que ela foi tomada, mas a data em que o resultado dela vai aparecer. Se a decisão é mudar a meta de margem, a data é quando o impacto da nova meta entra no relatório. Se é cancelar um projeto, a data é quando os recursos são realocados. Decisão sem data não é decisão. É intenção. O Protocolo DDR transforma intenção em compromisso.

Toda decisão real tem Revisão. Quando voltamos a olhar para isso? Sem critério de revisão, qualquer decisão sobrevive por inércia, mesmo quando o contexto muda completamente. O Protocolo DDR estabelece o ponto de retorno antes de o ponto chegar. Pode ser uma data, um gatilho, uma métrica. O importante é que exista, registrado, no fim da reunião.

Aplique o Protocolo DDR nos próximos quinze dias. Saia de cada reunião com Dono, Data e Revisão escritos. Você vai descobrir, sem necessidade de auditoria, quantas reuniões da sua semana são, na verdade, ensaios bem organizados. O Protocolo DDR não cria decisões novas. Apenas revela quantas você acreditava ter tomado e, na prática, não tinha.

Do Campo

Em janeiro de 2023, a Shopify executou o que chamou internamente de "calendar purge". A operação cancelou todas as reuniões recorrentes com mais de duas pessoas, eliminou 12.000 eventos do calendário corporativo e devolveu 76.500 horas ao time. O número foi divulgado pelo COO Kaz Nejatian em entrevista à Bloomberg, em fevereiro daquele ano.

O que a Shopify descobriu não foi que reuniões consomem tempo. Foi que a maioria delas não produzia saída. Quando o calendário ficou vazio, o time precisou justificar cada reagendamento com dono, pauta e desfecho esperado. Em três meses, o ritmo de decisão acelerou e a velocidade de release cresceu. O que parecia coordenação era inércia coletiva apresentada como produtividade.

A Pergunta da Semana

Quantas reuniões da sua semana terminaram com Dono, Data e Revisão escritos?

Olhe o calendário dos últimos sete dias e responda. Se o número for menor que a metade, você não tem comitê de decisão. Tem cerimônia.

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